O Canto XVII da Odisseia (versos 290–327) consagra um dos episódios mais comoventes e duradouros de toda a história da literatura universal. A narrativa épica acompanha o retorno de Ulisses à sua terra natal, Ítaca, após vinte longos anos de ausência devido à Guerra de Troia e às intempéries de sua jornada.
Ocultando sua identidade sob o disfarce de um humilde mendigo para tramar sua vingança contra os pretendentes que espoliavam seu palácio, Ulisses passa despercebido por todos, inclusive por sua própria esposa, Penélope. No entanto, o único ser capaz de reconhecê-lo de imediato é Argos, seu velho cão de caça. Descrito por Homero como um animal extremamente leal, veloz e inteligente, Argos havia sido deixado para trás ainda filhote.
Na ausência prolongada do senhor, o palácio mergulhou em decadência, e o cão sucumbiu ao abandono. Jazia esquecido sobre um monte de estrume diante dos portões, debilitado, doentio e completamente negligenciado pelos servos, refletindo a própria dissolução da ordem e da humanidade na ausência do legítimo rei. Contudo, ao vislumbrar o mestre sob os farrapos, o animal reúne suas últimas forças, agita a cauda e abaixa as orelhas em sinal de reverência e alegria.
Impedido de se aproximar devido à exaustão extrema e mantendo o disfarce para não comprometer o plano, Ulisses contém a emoção e disfarça uma lágrima. Tendo guardado esperança por duas décadas inteiras apenas para aquele instante supremo, o velho cão morre logo após reencontrar e reconhecer seu dono, com a missão cumprida. A cena literária foi imortalizada em diversas representações artísticas, como na célebre pintura “Ulisses e Argos” (1890), do artista Brinton Rivière.
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Por Caio Souza
Portal Rio Norte | Manaus – AM
Fotos: Am Post
Fonte: Portal Rio Norte

